24.12.2009
Entrevista a Conrado Montesinos
Alexandra Figueiredo, jornalista do Portal da Psicologia, entrevistou Conrado Montesinos. Conrado Montesinos é Psiquiatra, Pedopsiquiatra, Psicanalista e Terapeuta de Casal. É licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade de Cádiz, Especialista em Pedopsiquiatria pela Ordem dos Médicos de Portugal, Especialista em Psiquiatria pelo Colégio Medico de Cádiz, Doutorado em Terapia Cognitivo Comportamental pela Universidade Internacional de Bircham (Reino Unido). Institucionalmente é na actualidade Professor e Membro do Conselho Científico do Instituto Nacional de Psicologia e Neurociências.
Portal da Psicologia (PP): Em que consiste a psiquiatria infantil?
Prof. Conrado Montesinos (CM): A psiquiatria infantojuvenil ocupa-se da assistência a problemas de saúde mental e perturbações do comportamento em geral, das crianças e adolescentes, com idades entre os 0 e os 18 anos.
PP: Porque optou por uma psiquiatria da criança?
CM: Está demonstrado que 70% dos problemas de saúde mental começam ou são gerados antes dos 14 anos. Portanto, a sua prevenção e tratamento são fundamentais. Por outro lado, a perturbação mental nestas idades em pleno desenvolvimento não está ainda totalmente estruturada. Isto faz com que o trabalho psicopatologias seja muito mais gratificante do que na população adulta, onde as patologias podem ser crónicas e nem sempre fáceis de abordar.
PP: Quando procurar a ajuda de um psiquiatra para uma criança?
CM: Quando tiver uma perturbação do comportamento evidente nas últimas semanas ou meses. Isto em termos gerais. É preciso observar alterações repentinas no rendimento escolar, episódios graves de irritabilidade no meio familiar, fobias escolares, conflitualidade no meio escolar, alterações importantes na alimentação, alterações na maneira de se vestir, no meio escolar, isolamento social, regressões no controlo dos esfíncteres nas crianças, agitação excessiva com problemas de atenção, etc.
PP: Em que problemáticas mais se especializou e porquê?
CM: Em perturbações do comportamento em crianças e adolescentes e em hiperactividade em crianças e adolescentes. O adolescente é o mais receptivo a um bom trabalho psicoterapêutico. Ao mesmo tempo, é muito difícil de trabalhar com eles, pois o se narcisismo, em pleno florescimento, sente-se atacado quando vai a um psiquiatra: Por sua vez, se conseguimos estabelecer uma boa relação e empatia, as possibilidades de ajuda-los são enormes. Quanto á hiperactividade, porque esta perturbação vai ser a doença do século XXI em crianças e adolescentes e porque no futuro se vai evidenciar que abarca todo o mundo psíquico. A personalidade hiperactiva é algo muito mais complexo do que ser uma criança agitada e com problemas de concentração. A criança hiperactiva, se não for tratada, será um adulto hiperactivo com problemas a nível conjugal, laboral, social e afectivo. Por isso, a hiperactividade abarca perturbações de personalidade e a sua comorbilidade (os quadros psiquiátricos associados) é altíssima e no futuro se saberá o que vem primeiro: a hiperactividade ou um vasto conjunto de perturbações que a acompanham sempre.
PP: Quais os principais motivos da procura da terapia para crianças?
CM: Fracasso no desempenho escolar, hiperactividade em geral, perturbações do comportamento, oposição, comportamentos desafiantes e por último tem havido um aumento dos transtornos de ansiedade e obsessões.
PP: Quais os principais benefícios que traz a psiquiatria infantil?
CM: Prevenção. Basicamente a prevenção. A psiquiatria infantojuventil é uma medicina preventiva. Estranharia a muitas famílias e próprios pacientes o desenvolvimento de muitas perturbações que aparecem pelos 20, 30 anos, mas que na realidade se vão gerando na primeira ou segunda infância. Se conseguirmos detecta-los e trata-los o prognóstico e evolução geral seria totalmente diferente.
PP: Quais os sinais de ansiedade ou depressão numa criança?
CM: Na depressão, os episódios de irritabilidade, as alterações na alimentação, tanto por excesso como por defeito, alterações no sono, baixo rendimento escolar, isolamento social. A depressão infantil, nem sempre se manifesta como no adulto, por tristeza, choro ou verbalização de falta de vontade de viver. Por isso e preciso estar muito atento aos sintomas.
A ansiedade infantil também tem traços específicos: roem as unhas ou puxam o cabelo frequentemente, aparecem medos muito difusos, fobias escolares, alterações na alimentação, preocupação excessiva com o futuro ou com o presente, com a saúde, receio de baixar as notas escolares (apesar de em geral serem bons alunos), etc.
PP: Quais os principais meios de diagnóstico?
CM: Os dados recolhidos dos pais e a observação do terapeuta são basilares. Para além disso, existem vários testes e questionários escolares que nos podem ajudar. Por vezes são necessárias provas médicas (análises ao sangue, Ressonância Magnética, TAC, exames à tiróide, electroencefalograna, electrocardiograma, etc.), que descartem alguma patologia orgânica (epilepsia, hipertiroidismo, tumores cerebrais, alterações metabólicas diversas, etc.)
PP: Até fazer um diagnóstico quanto tempo é em média necessário?
CM: Depende de cada caso. Mas creio que é arriscado avançar um diagnóstico antes de ter realizado três ou quatro entrevistas pessoais com a família e o paciente.
PP: Existem testes recentes que constituam grande evolução na procura da verdade de cada criança?
CM: Existem testes que facultam vários dados e são de grande ajuda. Mas para mim, repito, a observação psicopatológica com a criança ou adolescente constitui o principal recurso do psiquiatra. E esta parte é difícil, já que a capacidade de empatia e inteligência emocional do terapeuta é algo que pertence apenas às suas capacidades pessoais. E nem todos estão preparados para desenvolver-se. Pode-se ser um grande investigador ou um excelente gestor na área da saúde mental e ser um péssimo clínico devido à incapacidade de chegar à realidade mental da criança ou adolescente, a qual é algo diferente da do adulto e muito difícil de abordar e infelizmente todos conhecemos grandes profissionais no campo da investigação psiquiátrica que se revelaram péssimos terapeutas, pela sua personalidade e atitude na população infantojuvenil.
PP: Considera importante a terapia familiar? Porquê?
CM: A terapia familiar é fundamental. É praticamente impossível desenvolver uma boa terapia com uma criança ou adolescente com problemas mentais, se não houver um trabalho contínuo com a família. A informação da evolução do caso à família, o esclarecimento de dúvidas, é fundamental. Ás vezes é necessário recorrer a psicofármacos porque muitas patologias têm uma base neurológica, ou melhor dito, neuropsiquiátrica e os tratamentos psicoterapêuticos, não são suficientes (por exemplo nas perturbações psicóticas, bipolares, hiperactividade grave, etc.) e é necessário o medicamento. A eliminação de receios e ansiedade dos pais é muito importante, pelo que é necessário realizar um trabalho sistémico (a família entendida como um sistema). E temos de entender, por último, que muitos pais sofrem também de perturbações mentais e foram a base genética da doença dos seus filhos. Por isso o pedopsiquiatra deve ter uma formação rigorosa em psiquiatria de adultos e em terapia familiar. Geralmente e infelizmente nem sempre durante a especialização existem formações suficientes nestas áreas. Por isso, um pedopsiquiatra deve formar-se posteriormente através de um mestrado em terapia familiar, prévio ou posterior à especialização em psiquiatria infantojuvenil e continuar a sua especialização em psiquiatria de adultos, como foi o meu caso.
Portal da Psicologia (PP): Em que consiste a psiquiatria infantil?Prof. Conrado Montesinos (CM): A psiquiatria infantojuvenil ocupa-se da assistência a problemas de saúde mental e perturbações do comportamento em geral, das crianças e adolescentes, com idades entre os 0 e os 18 anos.
PP: Porque optou por uma psiquiatria da criança?
CM: Está demonstrado que 70% dos problemas de saúde mental começam ou são gerados antes dos 14 anos. Portanto, a sua prevenção e tratamento são fundamentais. Por outro lado, a perturbação mental nestas idades em pleno desenvolvimento não está ainda totalmente estruturada. Isto faz com que o trabalho psicopatologias seja muito mais gratificante do que na população adulta, onde as patologias podem ser crónicas e nem sempre fáceis de abordar.
PP: Quando procurar a ajuda de um psiquiatra para uma criança?
CM: Quando tiver uma perturbação do comportamento evidente nas últimas semanas ou meses. Isto em termos gerais. É preciso observar alterações repentinas no rendimento escolar, episódios graves de irritabilidade no meio familiar, fobias escolares, conflitualidade no meio escolar, alterações importantes na alimentação, alterações na maneira de se vestir, no meio escolar, isolamento social, regressões no controlo dos esfíncteres nas crianças, agitação excessiva com problemas de atenção, etc.
PP: Em que problemáticas mais se especializou e porquê?
CM: Em perturbações do comportamento em crianças e adolescentes e em hiperactividade em crianças e adolescentes. O adolescente é o mais receptivo a um bom trabalho psicoterapêutico. Ao mesmo tempo, é muito difícil de trabalhar com eles, pois o se narcisismo, em pleno florescimento, sente-se atacado quando vai a um psiquiatra: Por sua vez, se conseguimos estabelecer uma boa relação e empatia, as possibilidades de ajuda-los são enormes. Quanto á hiperactividade, porque esta perturbação vai ser a doença do século XXI em crianças e adolescentes e porque no futuro se vai evidenciar que abarca todo o mundo psíquico. A personalidade hiperactiva é algo muito mais complexo do que ser uma criança agitada e com problemas de concentração. A criança hiperactiva, se não for tratada, será um adulto hiperactivo com problemas a nível conjugal, laboral, social e afectivo. Por isso, a hiperactividade abarca perturbações de personalidade e a sua comorbilidade (os quadros psiquiátricos associados) é altíssima e no futuro se saberá o que vem primeiro: a hiperactividade ou um vasto conjunto de perturbações que a acompanham sempre.
PP: Quais os principais motivos da procura da terapia para crianças?
CM: Fracasso no desempenho escolar, hiperactividade em geral, perturbações do comportamento, oposição, comportamentos desafiantes e por último tem havido um aumento dos transtornos de ansiedade e obsessões.
PP: Quais os principais benefícios que traz a psiquiatria infantil?
CM: Prevenção. Basicamente a prevenção. A psiquiatria infantojuventil é uma medicina preventiva. Estranharia a muitas famílias e próprios pacientes o desenvolvimento de muitas perturbações que aparecem pelos 20, 30 anos, mas que na realidade se vão gerando na primeira ou segunda infância. Se conseguirmos detecta-los e trata-los o prognóstico e evolução geral seria totalmente diferente.
PP: Quais os sinais de ansiedade ou depressão numa criança?
CM: Na depressão, os episódios de irritabilidade, as alterações na alimentação, tanto por excesso como por defeito, alterações no sono, baixo rendimento escolar, isolamento social. A depressão infantil, nem sempre se manifesta como no adulto, por tristeza, choro ou verbalização de falta de vontade de viver. Por isso e preciso estar muito atento aos sintomas.
A ansiedade infantil também tem traços específicos: roem as unhas ou puxam o cabelo frequentemente, aparecem medos muito difusos, fobias escolares, alterações na alimentação, preocupação excessiva com o futuro ou com o presente, com a saúde, receio de baixar as notas escolares (apesar de em geral serem bons alunos), etc.
PP: Quais os principais meios de diagnóstico?
CM: Os dados recolhidos dos pais e a observação do terapeuta são basilares. Para além disso, existem vários testes e questionários escolares que nos podem ajudar. Por vezes são necessárias provas médicas (análises ao sangue, Ressonância Magnética, TAC, exames à tiróide, electroencefalograna, electrocardiograma, etc.), que descartem alguma patologia orgânica (epilepsia, hipertiroidismo, tumores cerebrais, alterações metabólicas diversas, etc.)
PP: Até fazer um diagnóstico quanto tempo é em média necessário?
CM: Depende de cada caso. Mas creio que é arriscado avançar um diagnóstico antes de ter realizado três ou quatro entrevistas pessoais com a família e o paciente.
PP: Existem testes recentes que constituam grande evolução na procura da verdade de cada criança?
CM: Existem testes que facultam vários dados e são de grande ajuda. Mas para mim, repito, a observação psicopatológica com a criança ou adolescente constitui o principal recurso do psiquiatra. E esta parte é difícil, já que a capacidade de empatia e inteligência emocional do terapeuta é algo que pertence apenas às suas capacidades pessoais. E nem todos estão preparados para desenvolver-se. Pode-se ser um grande investigador ou um excelente gestor na área da saúde mental e ser um péssimo clínico devido à incapacidade de chegar à realidade mental da criança ou adolescente, a qual é algo diferente da do adulto e muito difícil de abordar e infelizmente todos conhecemos grandes profissionais no campo da investigação psiquiátrica que se revelaram péssimos terapeutas, pela sua personalidade e atitude na população infantojuvenil.
PP: Considera importante a terapia familiar? Porquê?
CM: A terapia familiar é fundamental. É praticamente impossível desenvolver uma boa terapia com uma criança ou adolescente com problemas mentais, se não houver um trabalho contínuo com a família. A informação da evolução do caso à família, o esclarecimento de dúvidas, é fundamental. Ás vezes é necessário recorrer a psicofármacos porque muitas patologias têm uma base neurológica, ou melhor dito, neuropsiquiátrica e os tratamentos psicoterapêuticos, não são suficientes (por exemplo nas perturbações psicóticas, bipolares, hiperactividade grave, etc.) e é necessário o medicamento. A eliminação de receios e ansiedade dos pais é muito importante, pelo que é necessário realizar um trabalho sistémico (a família entendida como um sistema). E temos de entender, por último, que muitos pais sofrem também de perturbações mentais e foram a base genética da doença dos seus filhos. Por isso o pedopsiquiatra deve ter uma formação rigorosa em psiquiatria de adultos e em terapia familiar. Geralmente e infelizmente nem sempre durante a especialização existem formações suficientes nestas áreas. Por isso, um pedopsiquiatra deve formar-se posteriormente através de um mestrado em terapia familiar, prévio ou posterior à especialização em psiquiatria infantojuvenil e continuar a sua especialização em psiquiatria de adultos, como foi o meu caso.
Entrevista por Alexandra Figueiredo
O Portal da Psicologia agradece ao Prof. Doutor. Conrado Montesinos a simpatia e disponibilidade manifestada para a realização desta entrevista





